quinta-feira, 11 de junho de 2009

Graças a Deus, não somos individualistas

Um sociólogo com quem conversei não cansava de referir-se negativamente ao notório “individualismo” da formação do povo americano, estudado, por exemplo, por Weber e incorporado ao senso comum sociológico como conhecimento trivial e conhecido de todos. Quando fiz notar que este individualismo está associado ao dever e ao sacrifício por intermédio da noção de vocação, que une realização individual à boa obra, o sociólogo espantou-se, e sugeriu que eu estava fazendo uma interpretação original e idiossincrática do conceito de individualismo. Para ele, significava algo como “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Caso ocorra ao leitor que esse sociólogo era particularmente tolo, sugiro que relembre os comentários que cientistas sociais brasileiros fizeram durante a catástrofe do Furacão Katrina. Ante as notícias (mais tarde demonstradas falsas) de que a enchente instaurara o pandemônio, o crime e a total desumanidade, os cientistas sociais consultados pelso jornais serenamente apontaram o “individualismo norte-americano” como orientação para a moral do “cada um por si”, em contraste com a natural solidariedade brasileira (não estou brincando).
Nossos especialistas estão aí para ratificar, com a terminologia "técnica" das ciências humanas, essa besta e desembestada auto-lisonja coletiva, que já ocupava nosso imaginário desde sempre. É por isso que o brasileiro não consegue sequer conceber a dedicação a uma causa onde não seja um empreendimento coletivo, nem estudo solitário cuja recompensa não seja outra que a própria elevação.

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