Os desdobramentos da historinha do último post são muitos. Um problema que surge dali é a facilidade com que um entendimento errôneo, e francamente tolo, de um autor se torna senso comum entre a classe falante, e pelo prestígio dessa classe, alcança a sociedade inteira. Como isso se dá?
(Digo classe falante porque é esta precisamente a atividade que ocupa principalmente os acadêmicos. Desde que se ingressa naquele mundo, percebe-se que o prestígio é obtido manifestando-se, expressando-se, opinando, mesmo quando o conteúdo é de baixa qualidade. Entre esses especialistas, há quem privilegie o reconhecimento interno, entre os pares, que é conquistado com a multiplicação dos livros e artigos (novamente, independentemente da qualidade). O que importa aqui é que há quem prefira o prestígio fora da academia, na imprensa, nos debates públicos, junto às organizações militantes, os grêmios estudantis, os sindicatos, e finalmente o público em geral que assiste TV e lê jornais. Em todos os casos, ter ouvintes é ter prestígio.)
Assim se faz os condutores. E os conduzidos? Têm ouvintes aqueles que dizem o que outros querem ouvir. Daí o necessário componente de lisonja no anti-americanismo “científico” entre os sociólogos que falam para fora. Daí os alvos das críticas às mazelas sociais serem frequentemente impessoais, como a "desigualdade" e a "herança histórica". Daí as soluções recomendadas caminharem frequentemente no sentido do menos difícil para o indivíduo: aumento do Estado, com a transferência para cima da incumbência de auxiliar ao próximo, e rejeição dos valores tradicionais, que implicam dever e responsabilidade, especialmente com a família.
O sucesso pessoal é incerto e seu caminho é penoso quando nosso objetivo é preservar o bem, defender uma família, encarar um ofício como um zelo. O insucesso neste caso é pessoal e intransferível. Quem joga o sentido da vida para a transformação social, para a adesão a uma causa coletiva, está propondo uma missão de caráter igualmente incerto, mas isento de responsabilidade pessoal.
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