

Já que o assunto da semana é Darwin, e eu não tenho opinião nenhuma sobre aquele senhor e sua obra, vou contar só uma discussãozinha por e-mail.
A fagulha do debate não foi o bicentenário do nascimento do Darwin, mas esta notícia sobre o ensino do design inteligente nas escolas. Desabou a tradicional litania a respeito da oposição entre ciência e religião, coisas só inconciliáveis na reduzidíssima imaginação cientificista. Ocorreu-me imediatamente o trecho de Chesterton:
Evolution is a good example of that modern intelligence which, if it destroys anything, destroys itself. Evolution is either an innocent scientific description of how certain earthly things came about; or, if it is anything more than this, it is an attack upon thought itself. If evolution destroys anything, it does not destroy religion but rationalism. If evolution simply means that a positive thing called an ape turned very slowly into a positive thing called a man, then it is stingless for the most orthodox; for a personal God might just as well do things slowly as quickly, especially if, like the Christian God, he were outside time. But if it means anything more, it means that there is no such thing as an ape to change, and no such thing as a man for him to change into. It means that there is no such thing as a thing. At best, there is only one thing, and that is a flux of everything and anything. This is an attack not upon the faith, but upon the mind; you cannot think if there are no things to think about. You cannot think if you are not separate from the subject of thought. Descartes said, "I think; therefore I am." The philosophic evolutionist reverses and negatives the epigram. He says, "I am not; therefore I cannot think."
A reação foi imediata. Os escandalizados imediatamente proclamaram duas coisas:
1) Que não entenderam o que Chesterton quis dizer
2) que Chesterton está dizendo besteira
Sim, me ocorreu a idéia de que você não pode ao mesmo tempo protestar sua incompreensão de uma proposição e pretender impugná-la. Mas é assim que as coisas são para os cientificistas. Afinal, são pessoas que vão defender até o último suspiro a supremacia das ciências naturais, e em especial a evolução, admitindo entendê-la bem pouco.
Meu interesse ao transcrever a passagem foi mostrar a proposição que começa com “if evolution simply means...”. Para mim é óbvio que não há conflito entre a origem do homem pela evolução e o papel de Deus como criador de toda a vida, com um interesse especial na criatura homem. A intenção foi, portanto, conciliadora. Mas quem sou eu para ciscar um pedacinho do raciocínio de um autor tão instigante como Chesterton? O parágrafo não é grande. Mas calhou que o resto do trecho causou escândalo e confusão. Confusão porque o estilo de Chesterton é compacto e poético; escândalo porque ali tem uma crítica ao evolucionismo que não dá para um pigmeu filosófico entender a primeira vista, mas que dá para ver que é uma crítica.
Arrisco-me a explicar: Chesterton está dizendo que o homem pode ter evoluído do macaco, mas isso não significa que não haja uma diferença de essência entre o homem e o macaco, nem entre o macaco e o pré-macaco. Tirar conseqüências ontológicas da evolução pode trazer o seguinte absurdo: se o homem e o macaco não são seres diferentes, mas apenas uma mesma coisa diferindo em estado e em acidentes, o macaco (e o homem) é a mesma coisa que o pré-macaco, e assim por diante até as bactérias, os probiontes, a massa orgânica que deu origem à vida, o carbono e as estrelas. Se o homem é o mesmo que o carbono, não poderia haver um pensamento, quanto mais uma ciência, sobre o carbono, sua constituição e as leis que o governam, e outro sobre o ser humano e sua essência. Toda a filosofia natural ficaria desmentida. Nenhuma teoria científica, portanto, pode desobedecer ao princípio uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A metafísica fica intocada pela teoria da evolução, é só isso.
Quem conhece Chesterton de orelhada sabe que ele é autor de inúmeros deliciosos paradoxos. Mas ele entende bem a diferença entre paradoxo e contradição.
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